Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho: Uma Análise em Meio à Realidade Brasileira - Por Haroldo Dutra Dias
NO BRASIL ESTÃO REUNIDOS OS PIORES ESPÍRITOS FALIDOS NA TERRA - Palestra disponível no Canal do You Tube Espiritualidade Espirita Roberto - Texto reeditado por I.A.
Minha grande
dúvida ao começar a reestudar a obra de Chico Xavier, ditada pelo Espírito
Humberto de Campos, "Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho",
residia em como conciliar essa afirmação com a realidade de um país assolado
por tanta corrupção e injustiça social.
Inicialmente, ao ler o livro, a impressão que tive foi de que a
designação "Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho" indicava
uma missão de evangelização global. Essa ilusão, contudo, confrontava-se com a
persistente corrupção e os inúmeros problemas que afligem o Brasil.
Uma leitura
mais atenta, especialmente a passagem da conversa entre Ismael e Jesus, trouxe
uma nova compreensão. Jesus pede a Ismael que se dirija às regiões sombrias do
mundo espiritual, levando a bandeira de "Deus, Cristo e Caridade", e
acolha os espíritos que falharam em diversas épocas, como nas Cruzadas, na
Noite de São Bartolomeu e em outros movimentos tristonhos ao longo de mais de
mil anos. Esses espíritos seriam trazidos para o Brasil.
Essa
revelação me fez entender que o Brasil é, na verdade, o grande hospital de
Jesus. É aqui que Ele acolhe os "doentes da alma" para tratamento,
recebendo aqueles espíritos que enfrentam maiores dificuldades com a lei
divina. Não todos, mas um grande número deles, são trazidos para que, através
do clima espiritual e das características geográficas e físicas do país, possam
ser sensibilizados. Assim, muitos espíritos que falharam na Revolução Francesa,
por exemplo, reencarnam no Brasil para ter a oportunidade de refazer seus
destinos. No entanto, sendo "doentes da alma", a corrupção e a
violência que vemos são reflexos dessas enfermidades espirituais em processo de
cura. É estranho, portanto, entrar em um hospital e reclamar da presença de
doentes.
Se estudarmos
a história do Espiritismo no Brasil, veremos inúmeros casos de "cura"
dessas almas, e eu me incluo entre eles. Outro ponto crucial reside no capítulo
3 de "O Evangelho Segundo o Espiritismo", que aborda a progressão dos
mundos. Acredito que haja muita "fantasia" em relação ao mundo de
expiação e provas, esperando-se dele o que ele não pode oferecer. É ilusório
esperar que espíritos imperfeitos construam instituições perfeitas, gerando
justiça e igualdade em grau máximo. Estamos em um mundo de expiação e provas,
uma "floresta", uma "selva", como Otacílio bem colocou.
Ainda não estamos sequer no meio do caminho evolutivo.
Essa
digressão se faz necessária para entender que o Brasil é como um rio caudaloso
que recebe diversos afluentes. Esses afluentes representam as perturbações de
Roma (depravação sexual, abuso de poder, tirania), o intelectualismo tóxico da
Grécia, o espírito bélico de Esparta e a parcela mais fanática e intolerante do
povo hebreu. Além disso, acolhemos os espíritos das Cruzadas, aqueles que
colocavam ideais acima dos seres humanos, justificando a violência em nome
desses ideais. E também os religiosos, que protagonizaram eventos como a Noite
de São Bartolomeu, onde católicos e protestantes se matavam em nome de suas
crenças. O problema surge quando ambos os lados se consideram certos, tornando
a resolução do conflito extremamente difícil.
O capítulo 5 da obra nos revela que Jesus trouxe todos esses
espíritos para cá. Ismael expressa sua perplexidade diante dessa concentração
de almas com históricos tão complexos, vindas de eventos como a Revolução
Francesa. E é importante notar que todos esses espíritos sempre encontram
justificativas para seus atos. Não há queda moral sem uma racionalização por
trás.
Ao
observarmos a natureza do Brasil, desde Rondônia até o Rio Grande do Sul,
percebemos uma configuração de possibilidades única. Há algo diferente aqui.
Muitos que encarnam no Brasil estão construindo seu próprio degredo através de
seus desmandos e loucuras. Um dia entenderemos, como disse André Luiz, que
"toda maldade é loucura, é adoecimento da mente".
Contudo,
também vemos a redenção em curso. Pessoas como a senhora que fundou o hospital
do Pênfigo, os anônimos da Igreja Católica, da Umbanda, os árabes, evangélicos
e espíritas constroem sua redenção nesta terra. Há aqueles que, paradoxalmente,
usam os instrumentos do bem para trilhar o caminho do inferno, enquanto outros
se redimem utilizando as oportunidades que este ambiente oferece.
É crucial
entender que o desígnio de cada um é individual. Nascemos para resolver
problemas específicos de algumas pessoas, e ao fazê-lo, nos tornamos bênçãos.
Desviar desse propósito leva à tolerância em vez de celebração. Quem encarnou
aqui esperando uma sociedade sem desigualdade está no planeta errado. Este é um
local de reencontro de espíritos que participaram de massacres e atrocidades em
diversas épocas e lugares. A fantasia de que seres humanos imperfeitos
construirão instituições perfeitas é um delírio. Estamos em um esforço
contínuo.
Essa é a
minha visão do Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho, despojada de
fanatismo. Somos cidadãos do universo, e a Terra, como todos os planetas, terá
seu fim. O fanatismo e o nacionalismo são características de espíritos
imperfeitos. O que foi dado a este país foram problemas para resolver,
problemas graves, começando pelo psiquismo de seus habitantes. Esse trabalho
pode ser nossa perdição ou nossa redenção, como foi para Bezerra de Menezes, Dom
Pedro II e Chico Xavier. A pergunta crucial é: qual será o nosso caminho?
Perdição ou redenção?
Para mim, o símbolo deste país remete a Jesus na cruz. Em seus
últimos suspiros, um homem, Longinos, cravou-lhe uma lança. Aquele que cometeu
esse ato veio se redimir aqui, no Brasil. No capítulo 2 da obra, Jesus diz a
Eleu que a região do Cruzeiro, onde se realizará a epopeia do Evangelho, estará
eternamente ligada ao Seu coração. As questões políticas, econômicas e
sociológicas serão secundárias. Acima de tudo, em solo santificado, estará o
sinal da fraternidade universal, unindo todos os espíritos. A assistência
compassiva de Jesus e a mão de Deus pousarão sobre esta terra com infinita
misericórdia. As potências imperialistas da Terra esbarrarão sempre nessas claridades
divinas. Antes de estar ligada ao coração dos homens, esta terra está ligada ao
coração de Jesus para sempre.
Portanto, a
obra não afirma que o Brasil se tornaria uma potência imperialista. Qual seria
a alternativa desejável? Ser colonizado pela França, como a Argélia? Pela
Inglaterra, como a África do Sul? A promessa de um país como as nações
imperialistas europeias, que construíram seu patrimônio sobre a pilhagem, não
se coaduna com o Evangelho. Não nos iludamos. Há interesses distintos: os do Cristo
e os dos dominadores do mundo. Cristo jamais domina escravizando ou prospera
usurpando. Ele veio para nos desenraizar dos interesses puramente materiais,
para colocarmos em primeiro lugar o reino de Deus.
No capítulo
3, Jesus diz a Ismael: "Para aí transplantei a árvore da minha
misericórdia. Espero que a cultives com a tua abnegação e com o teu sublimado
heroísmo". Não seria fácil dirigir esta nação. Ismael frequentemente se
reunia com Jesus, e em um desses encontros, antes de falar, começou a chorar. O
motivo? Iniciava-se no Brasil a escravidão, o primeiro grande karma coletivo
deste país.
O que mais
impressiona é que nós, espíritas, muitas vezes achamos que o país avançará sem
quitar esse débito coletivo e, principalmente, sem renovar a mentalidade que
estava na base da escravidão: a crença de que o trabalho é algo inferior. Essa
mentalidade ainda persiste em muitas famílias brasileiras. Quantas
reencarnações serão necessárias para mudar isso? O trabalho é visto com
desprezo, impregnado em nosso espírito. Por isso trouxemos escravos e, de certa
forma, ainda os temos. Jesus pediu abnegação e heroísmo a Ismael para mudar
essa mentalidade.
O segundo
ponto, profundamente espiritual, é a nossa reação diante dos problemas atuais.
Em momentos difíceis, como os escândalos de corrupção, muitos espíritas,
herdeiros do conhecimento da imortalidade da alma, questionam a missão do
Brasil, olhando para a política, as instituições e a desigualdade. Alguns até
cogitam um "êxodo" espiritual.
Essa visão reflete uma expectativa equivocada do Evangelho.
Espera-se encontrar apenas espíritos superiores, instituições perfeitas e um
país materialmente resolvido. Mas quando os "puros" encontram Jesus,
Ele está almoçando com prostitutas e publicanos, figuras marginalizadas e corruptas.
A reação é de choque, como a de Simão Pedro. Jesus, no entanto, afirma:
"Eu não vim para os sãos, mas para os doentes".
Como compreender, então, que a pátria do Evangelho tenha a maior
soma de políticos desonestos do planeta? Entendendo que Jesus está almoçando
com os "publicanos" de hoje. Como entender a mentalidade de uma
população que relativiza pequenos roubos? Nossa ética se tornou quantitativa,
enquanto a ética do Cristo é qualitativa: "Quem é fiel no pouco também é
fiel no muito".
A obra do Evangelho
é uma obra de restauração moral. Não há ninguém aqui em sua décima encarnação.
Emmanuel respondeu a Chico Xavier que um criminoso é "qualquer um de nós
que foi descoberto". Em "Diálogo com as Sombras", um espírito
justiceiro se manifesta, trazendo à tona um volumoso "processo" de
erros cometidos em diversas encarnações. Diante disso, Jesus nos diria:
"Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro a lhe atirar uma
pedra". Mas não teríamos força para levantar sequer uma. Isso é o Evangelho:
obra de ressurreição.
Emmanuel, em
"Pontos Mortos", nos ensina que todos os dons e recursos malbaratados
são "pontos mortos" de nosso destino, que precisam ser regenerados.
Perdoar uma traição, por exemplo, é ressuscitar um ponto morto em nosso
relacionamento. A missão espiritual do Brasil já está sendo cumprida há quase
600 anos.
É crucial analisarmos essa realidade como espíritos imortais, à luz da Doutrina Espírita. Caso contrário, a conclusão seria pessimista. Há 2000 anos, Cristo já estava crucificado. Seus inimigos haviam conseguido o que queriam fisicamente. Mas a maldade não tem limites, e Longinos cravou-lhe a lança. Cristo, o governador espiritual do planeta, permitiu esse ato. Séculos depois, chamou Longinos e ofereceu-lhe a redenção na pátria do Evangelho, um lugar de sofrimento e dor purificadores, uma "noite escura, mas não sem estrelas". Longinos reencarnou como Dom Pedro II, um homem hoje aclamado como um grande estadista, mas que outrora foi chamado de bandido. Sua redenção ocorreu aqui.
Eleu, o
sociólogo de Jesus, afirmou que não se encontrou outro povo que substituísse os
portugueses na edificação da pátria do Evangelho, pois as demais nações estavam
presas à cobiça e à ambição. No povo lusitano, havia uma austera honradez
aliada a grandes qualidades. No entanto, seus companheiros não seriam melhores
em termos de educação espiritual, pois a época era de profundo atraso. O
sacrifício nas atmosferas próximas da Terra seria necessário para vencer as
trevas da consciência.
A reflexão final não se trata de um problema de Congresso ou
instituições, mas de algo mais profundo: o problema somos nós, nosso coração,
nosso destino, nossa regeneração. A verdadeira missão do Brasil, e de cada um
aqui, começa no lar. Como diz Emmanuel em "Luz no Lar", a Boa Nova
seguiu da manjedoura para as praças públicas, mas começou na humildade do lar
de Simão Pedro. A missão do Brasil se cumpre primeiro dentro de nossas casas.
Não adianta preocupar-se com o Congresso se o seu lar ainda não é a pátria do
Evangelho. No seu casamento, quem você é: quem está na cruz ou quem empunha a
lança?
As
instituições responsáveis já estão acionadas. Nossa preocupação não resolverá
os problemas. O que devemos fazer é elevar o Evangelho ao nosso voto, mas,
principalmente, começar a transformação em nosso lar. Você já está na pátria do
Evangelho.
O Brasil é o coração do mundo para ensinar o mundo a ter um
coração, não para se vangloriar. Muitos estrangeiros vêm e partem daqui com o
sentimento renovado. Você está aqui ou apenas influenciado pelo que acontece
aqui? Está esperando o quê? Anjos se candidatarem? Isso não acontecerá, pois só
reencarnam com missões políticas aqueles que se desviaram nessa área.
Lembro-me da história do motoboy em São Paulo, buzinando
incessantemente. Quando um motorista reclamou, ele respondeu: "Imagina eu,
que ouço todas". Assim somos nós com nossas próprias falhas.
Emmanuel, em
"Luz no Lar", explica que o lar é onde nossos maiores débitos são
resgatados, pois é onde há maior probabilidade de o amor reinar sobre o ódio.
Nossos filhos, muitas vezes, são nossos inimigos de outrora, vindo cobrar suas
dívidas, mas chegam pequenos, sem cobrar, dando-nos a oportunidade de amar e
nos sacrificar. As agruras da vida familiar revelam nossos "pontos
mortos", que podem ser curados se permitirmos que Cristo entre em nosso
lar e em nosso coração.
O senador, o
presidente da Petrobras, todos foram crianças. Em algum ponto, se desviaram.
Pode ser que nesta encarnação não haja mais tempo para a redenção, mas e a
criança em seu lar? Você conhece o passado dela? Precisa conhecer?
Acredito que Ismael esteja em reunião com Cristo, chorando, não
pela Petrobras, mas pelo lar espírita, pela família espírita, pelos exemplos
que os espíritas estão dando em seus casamentos, na educação de seus filhos.
Que exemplos os evangélicos estão dando? Muitos seguidores de Jesus estão
apegados a bens materiais, sedentos de aplausos e vaidosos, mais preocupados em
serem reverenciados do que em seguir o Evangelho. O que será das futuras
gerações que reencarnarão no Brasil? O momento é preocupante, e nossa reflexão
precisa considerar esses aspectos.
Jesus não espera que mudemos o Brasil sozinhos. O que Ele espera é
que mudemos nossas vidas. Isso está em nossas mãos.
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